LRS: a nova fronteira entre o mercado de seguros e o mercado de capitais

O mercado financeiro vive um momento de convergência entre duas indústrias que, durante muito tempo, caminharam de forma paralela: o setor de seguros e o mercado de capitais. No centro dessa conexão está um instrumento ainda pouco conhecido no Brasil, mas que já movimenta bilhões no exterior: a Letra de Risco de Seguro (LRS).

No podcast da Galapagos Capital, Rebeca Nevares, CMO da companhia, conversou com Roberto Takatsu e Octávio Kurosaka, sócios da Galapagos Capital, para explicar como funciona esse instrumento e por que ele pode abrir uma nova frente de inovação para investidores e seguradoras.

O que é a Letra de Risco de Seguro (LRS)

Apesar do nome técnico, a lógica da LRS é relativamente familiar para quem acompanha o mercado de capitais.

Segundo Roberto Takatsu, trata-se essencialmente de uma operação de securitização de risco de seguro.

Na prática, o risco assumido por uma seguradora é transferido para um título negociado no mercado de capitais. Esse título é a LRS.

O funcionamento ocorre da seguinte forma:

• uma seguradora possui uma carteira de riscos, como seguros de vida, automóvel ou crédito;
• parte desse risco é transferida para uma estrutura de securitização;
• investidores aportam recursos que ficam colateralizados para cobrir eventuais sinistros.

Se ocorrer o sinistro, os recursos serão utilizados para honrar o contrato. Caso contrário, os investidores recebem o retorno do investimento mais o prêmio de seguro pago.

“Estamos falando de algo muito próximo do que o mercado já conhece com os CRIs, CRAs ou FIDCs. A diferença é que, em vez de securitizar recebíveis, estamos securitizando um risco de seguro”, explica Takatsu.

O instrumento foi formalizado no Brasil pela Lei nº 14.430/2022, que também consolidou o marco da securitização no país.

Fonte: Lei nº 14.430/2022.

Como funciona o retorno para o investidor

Os recursos aportados pelos investidores ficam aplicados em ativos de baixo risco, normalmente títulos públicos.

Sobre essa base, soma-se o prêmio do contrato de seguro.

Na prática, o retorno tende a combinar:

• remuneração atrelada à Selic ou CDI
• prêmio de risco do contrato securitizado

Dependendo da estrutura da operação, os retornos podem atingir patamares como CDI + 3% ou CDI + 4%, segundo Takatsu.

Mas o ponto central para investidores é outro: a descorrelação com o risco de mercado atrelado a taxa de juros, câmbio ou bolsa.

“Se os juros sobem ou caem, isso não altera a mortalidade de uma carteira de vida ou a frequência de acidentes de automóvel. É um risco completamente diferente do ciclo econômico”, explica Octávio Kurosaka.

Essa característica faz com que o instrumento seja especialmente interessante para investidores institucionais e fundos que buscam diversificação de portfólio.

Um mercado consolidado no exterior

Embora ainda esteja em estágio inicial no Brasil, esse modelo já é amplamente utilizado em outros países.

Nos Estados Unidos e na Europa, instrumentos semelhantes são conhecidos como ILS (Insurance Linked Securities).

Segundo dados da plataforma Artemis, especializada no mercado de Insurance-Linked Securities:

• mais de US$ 25 bilhões foram emitidos em ILS apenas em 2025
• cerca de 93% dessas emissões estavam ligadas a riscos de catástrofes naturais

Fonte: Artemis – Catastrophe Bond Market Report.

Esses instrumentos surgiram após grandes eventos climáticos, como o furacão Andrew em 1992, quando o mercado segurador passou a enfrentar limitações de capacidade para absorver perdas de grande escala.

A solução encontrada foi trazer o mercado de capitais para mitigar  esse risco.

Por que esse modelo demorou a chegar ao Brasil

A discussão sobre securitização de riscos de seguro no Brasil não é nova. Segundo Takatsu, o tema já era debatido no país desde pelo menos 2017.

O principal entrave era regulatório.

Antes da criação das Sociedades Seguradoras de Propósito Específico (SSPE), cada operação exigia a abertura de uma Resseguradora de Propósito Especifico mas sem a segregação do patrimônio  e a autorização da SUSEP poderia  levar meses inviabilizando o modelo

Esse cenário mudou com a legislação recente, que permitiu estruturar LRS com patrimônio de afetação, criando uma separação jurídica entre cada operação.

Isso significa que:

• cada emissão possui patrimônio segregado
• os riscos de uma operação não se misturam com os de outra
• investidores possuem maior segurança jurídica

O papel da Galapagos na construção desse mercado

A Galapagos Capital vem atuando como uma das pioneiras na estruturação desse mercado no Brasil.

Segundo Takatsu, a vantagem da casa foi justamente conseguir conectar dois universos que historicamente operavam de forma separada.

“A Galapagos já tinha no DNA a estruturação de bonds e operações de mercado de capitais. O que trouxemos foi a expertise do mercado de seguros e resseguros para montar essa ponte”, afirma.

Para isso, a companhia estruturou:

• infraestrutura de análise de risco
• estrutura de emissão no mercado de capitais
• modelagem jurídica e de securitização
• sistema próprio de controle das operações

Essa integração permitiu que a casa estruturasse uma das primeiras emissões de LRS do país.

Além das catástrofes: novas aplicações para o instrumento

Embora os cat bonds tenham sido a origem desse tipo de estrutura no exterior, no Brasil as aplicações podem ser ainda mais amplas.

Entre os segmentos que já vêm demonstrando demanda estão:

• seguro garantia judicial
• seguro de crédito
• seguro de viagem
• seguro de vida

Segundo os executivos, há inclusive estruturas sendo estudadas para planos de saúde, algo ainda pouco explorado internacionalmente.

“O Brasil tem uma característica muito interessante no mercado de capitais: a criatividade para estruturar soluções. Como não viemos apenas do mercado de seguros, conseguimos enxergar oportunidades além do modelo tradicional”, diz Takatsu.

O potencial de crescimento desse mercado

O interesse pelo instrumento também se explica pelo tamanho do mercado de capitais brasileiro.

Em 2024, o mercado de securitização no país já se aproximava de R$ 1 trilhão em emissões, considerando instrumentos como CRIs, CRAs e FIDCs.

Fonte: ANBIMA – Estatísticas de Mercado de Capitais.

Ao transformar o risco de seguros em um ativo financeiro, abre-se um universo muito maior de capital disponível para absorver esses riscos.

Isso pode gerar benefícios em duas frentes:

• seguradoras ampliam sua capacidade de underwriting
• investidores acessam uma nova classe de ativos

O futuro das LRS no Brasil

Na visão dos executivos da Galapagos, o potencial de crescimento é significativo, mas ainda depende de alguns avanços regulatórios.

Entre os pontos discutidos pelo mercado estão:

• possíveis incentivos fiscais semelhantes aos de CRI e CRA
• ajustes operacionais e tributários
• maior padronização regulatória

Outro campo promissor é o uso do instrumento em catástrofes climáticas, tema que ganha relevância diante da intensificação de eventos extremos.

“Governos e estados poderiam usar estruturas como a LRS para proteção contra desastres naturais. Em outros países, esses instrumentos permitem liberar recursos em poucos dias após um evento”, explica Kurosaka.

Uma nova classe de ativos em construção

A Letra de Risco de Seguro representa um passo importante na evolução do mercado financeiro brasileiro.

Ao conectar seguradoras, investidores e mercado de capitais, o instrumento cria uma nova forma de distribuir risco e ampliar o acesso a capital.

Para investidores profissionais, trata-se de uma oportunidade de acessar um ativo potencialmente descorrelacionado dos ciclos econômicos tradicionais.

Para o mercado como um todo, pode ser o início de uma nova classe de ativos no país.

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