A América Latina está no epicentro de uma das maiores ondas de investimento em infraestrutura da história recente: a construção de data centers para suportar a economia de nuvem e inteligência artificial. Segundo levantamento da área de Investment Banking da Galapagos Capital, a demanda global por capacidade de data centers deve alcançar 219 GW até 2030, contra 82 GW em 2025, e o mercado de serviços em nuvem caminha para ultrapassar US$ 1,6 trilhão no mesmo período. O mercado de IA, por sua vez, deve sair de US$ 189 bilhões em 2023 para quase US$ 4,8 trilhões até 2034, com um CAGR de 34%. O volume de capital necessário para fechar a lacuna entre oferta e demanda de data centers pode chegar a US$ 7,9 trilhões entre 2025 e 2030, num cenário de demanda acelerada.
O desequilíbrio entre oferta e demanda
A velocidade de construção de novos data centers não acompanha o crescimento da demanda. Globalmente, as taxas de vacância em sites de colocation estão em mínimas históricas, e os preços de locação subiram cerca de 50% desde 2020. A demanda por energia dos data centers, que hoje representa aproximadamente 3,5% da geração global de eletricidade, deverá superar 9% até 2030, transformando a disponibilidade de energia no principal gargalo para a expansão do setor.
Os grandes hyperscalers – Alphabet, Meta, Microsoft, Amazon – estão acelerando investimentos sem precedentes. Os cinco maiores hyperscalers americanos aumentaram seus investimentos de capital (CapEx) em 66%, alcançando US$ 211 bilhões em 2024. A Meta planeja gastar US$ 68 bilhões, a Microsoft US$ 80 bilhões no ano fiscal 2025, e o Google comprometeu US$ 25 bilhões em infraestrutura de data centers e IA nos próximos dois anos.
A vocação natural da América Latina
É nesse cenário de escassez global que a América Latina ganha relevância. O estudo da Galapagos Capital identifica três vantagens estruturais que posicionam a região como hub natural da próxima onda de expansão:
- Energia mais limpa, mais barata e com excedente. O Brasil, por exemplo, tem 91% de sua capacidade de geração em fontes renováveis. Os preços de eletricidade para empresas na região ficam, em média, abaixo da média mundial de US$ 0,15/kWh. Além disso, vários países latino-americanos apresentam excedentes relevantes de energia.
- Mercado subpenetrado com forte potencial de crescimento. A demanda de data centers na América Latina, medida em MW por US$ bilhão de PIB, é significativamente inferior à dos Estados Unidos, o que indica uma ampla margem de expansão. A demanda total na região deve crescer a um CAGR de 26% entre 2024 e 2034, saindo de 780 MW para mais de 7.600 MW.
- Concentração de mercado que beneficia incumbentes. Na América Latina, os quatro maiores operadores detêm 76% da capacidade instalada, contra apenas 27% nos EUA, o que confere aos incumbentes maior poder de precificação e estabilidade operacional.
Brasil: o centro de gravidade
O Brasil é o grande protagonista da região, respondendo consistentemente por cerca de 54% da demanda total latino-americana. O país já abriga 189 data centers – 70% na região Sudeste, com São Paulo como hub indiscutível – e seu mercado deve crescer de US$ 5,3 bilhões em 2024 para US$ 7,1 bilhões até 2029.
Nos últimos anos, o país atraiu mais de US$ 3 bilhões em investimentos em infraestrutura de data centers, com mais de 700 MW em capacidade em desenvolvimento e mais de 1.800 MW projetados. Transações relevantes incluem a aquisição da Ascenty pela Digital Realty/Brookfield por US$ 1,8 bilhão (2018), a criação da Scala pela Digital Colony (2020), e a compra da ODATA pela Aligned Data Centers (2023), além de rodadas de financiamento bilionárias com instrumentos ESG – green debentures e sustainability-linked loans – que se tornaram padrão de captação do setor.
O grid elétrico nacional também é uma vantagem competitiva. O Sistema Interligado Nacional (SIN) cobre aproximadamente 98% do mercado de eletricidade e interconecta quatro subsistemas regionais, oferecendo maior estabilidade de preço e menor risco de escassez local comparado a mercados fragmentados como o dos EUA, que opera com três grids assíncronos. Os investimentos em transmissão estão acelerando: o CapEx médio por leilão dobrou desde 2022, de US$ 1,2 bilhão para US$ 2,2 bilhões, com expectativa de US$ 37 bilhões em novos investimentos até 2032.
Marco regulatório: ReData e ZPEs digitais
O arcabouço regulatório brasileiro deu um salto significativo. A Política Nacional de Data Centers (PNDC), por meio do programa ReData (MP 1.318), prevê a eliminação de impostos federais (PIS/COFINS, IPI, imposto de importação) sobre equipamentos de TIC destinados a data centers, reduzindo a carga tributária do setor de 52% para 18%. O governo estima que a PNDC pode atrair até R$ 2 trilhões (cerca de US$ 367 bilhões) em investimentos na próxima década.
Paralelamente, a MP 1.307 estendeu os benefícios das Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) a serviços digitais, incluindo data centers voltados a IA e infraestrutura de nuvem. O caso emblemático é o da ZPE do Pecém, no Ceará, onde a Casa dos Ventos, com a Pátria Investimentos como parceira, desenvolve um projeto de data center com investimento total estimado de R$ 50 bilhões (US$ 9,1 bilhões), operando com 100% de energia renovável, com início de operações previsto para o segundo semestre de 2027 e a ByteDance como potencial cliente-âncora.
Essa combinação de incentivos fiscais e energia renovável posiciona o Nordeste brasileiro como hub competitivo global para treinamento de IA, enquanto o Sudeste – com sua conectividade densa, proximidade aos centros de consumo e logística avançada – se consolida como polo natural para workloads de nuvem de baixa latência.
Chile, México e Colômbia completam o mapa
O estudo da Galapagos Capital também mapeou oportunidades nos demais mercados-chave:
Chile deve crescer a um CAGR de 18-19% em capacidade instalada até 2030, alcançando 579 MW. Santiago concentra mais de 85% da capacidade atual, e o país oferece incentivo fiscal de 30% sobre CapEx na região de Arica & Parinacota. A grande oportunidade está no excedente renovável do norte – cerca de 20% da geração solar e eólica é desperdiçada por limitações de transmissão, o equivalente a 6 TWh por ano.
México cresce a um CAGR de 31% em demanda, chegando a mais de 1.300 MW em 2032. Querétaro se consolidou como o principal corredor de data centers do país, com 31% dos 62 data centers nacionais. A proximidade com os EUA, o acordo USMCA e o programa IMMEX (que permite importação temporária de equipamentos sem impostos) impulsionam a competitividade
Colômbia projeta crescimento de 33% ao ano em demanda, com Bogotá concentrando 70% dos 42 data centers do país. A ODATA está investindo US$ 1,3 bilhão em dois novos campi na capital. O país ficou em 4º lugar nas Américas no Energy Transition Index 2025 do Fórum Econômico Mundial e oferece incentivos como dedução de 50% no imposto de renda para projetos renováveis e isenção de tarifas e IVA para equipamentos de energia limpa.
Múltiplos e atividade de M&A
No mercado global, data centers são negociados a múltiplos elevados. Transações precedentes mostram uma mediana de 23x EV/EBITDA e cap rate de 4,95%. Empresas públicas do setor negociam a 20,8x EV/EBITDA projetado para 2026 e 18,6x para 2027. As ações dos principais players globais de data centers mais que dobraram desde dezembro de 2022.
Por Carlos Parizotto, Partner & Managing Director, Investment Banking at Galapagos Capital